Alta Fidelidade  

A nós, sobretudo. E à música.


Façam-se ouvir: Escrevam-nos.


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The Serendipitous Cacophonies

Jazz no país do improviso

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Íntima Fracção

No Meu Umbigo

Juramento Sem Bandeira

Music is Math

Faz-me um bife

Crónicas da Terra


 
A questão é... gostam de piano? Então?... Gostam?....

para a Ana Teresa, Desse Lado do Espelho

Egberto Gismonti - Alma - 1987

Depois de me ter lembrado da ECM há alguns dias dei por mim a percorrer as divisões lá de casa (quando fui pôr a chaleira ao lume numa das sestas do Dormouse e enquanto a Lebre lia regaladamente) buscando preciosidades esquecidas. Dei da chapéu com a Alma.

Foi há já muito tempo, quando decidi ouvir coisas diferentes. Expandir o meu jazz. Dirigi-me ao portão prateado, desci a colina e toquei à campainha da Pianista. Ela respondeu-me, convidou-me para entrar e lá ficámos à conversa. No regresso trazia, juntamente com outras guloseimas, essas jazzísticas, a Infância de Egberto Gismonti. Nome que de todo desconhecia. Mais um maluco, pensei. De resto, sempre gostei da Infância. O Pedro Pã vem cá muitas vezes tomar chá.

Quando cheguei a casa, passei pela Lebre e pelo Ratinho, que, variando, se encontravam à colherada, e dirigi-me à poltrona. O Lewis nunca falou dela mas tenho uma poltrona daquelas onde apetece viver. Quando me sento já tinha deixado o disco pronto a tocar. Carrego brincar!

O piano de Egberto Gismonti é total. Egberto Gismonti, como o seu piano, é total. Ele percorre-se de piano, o piano percorre-o. Ele fala através do piano que murmura, grita, uiva, balbucia, gorgoleja. Brinca.... a última música do Alma, de que hoje vos quero contar é a segunda do Infância. Quando a ouvi pela primeira vez, ainda tinha o chapéu na cabeça, tirei-o e desatei a dançar pela sala e abanar-me todo. Com decoro, claro. É uma canção que vos deixará no topo do mundo. No topo do mundo!

São assim os 7 Anéis da Alma. Antecedidos por temas como o Baião Malandro, logo a abrir o álbum. O Maracatú (não o Atómico, desse falaremos noutro dia...), Água e Vinho, pois claro. Ou a Cigana.

Estamos aqui perante um virtuoso do piano mas isso será dizer muito pouco de Gismonti. Este pianista brasileiro, na Alma, como em todos os álbuns, torna-se a sua própria música e por isso faz-se variado e melódico, agressivo e diatónico feroz. Uma história é cada canção, um episódio inteiro cada álbum. A sua obra é, sem distinção a sua vida. E este álbum, muito bem e muito bom, a sua Alma.

E, não fosse ele editado pela ECM, brinda-nos com o pormenor das partituras de cada tema no livro interior. Magnífico.




  posted by Chapeleiro Maluco @ 3:44 PM

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12.22.2003  

 
Ela, casado com, mãe dela, casado com ele, que tem uma irmã que canta como quem acende lume com a boca

Coralie Clément - Salle des Pas Perdus - 2002

Agora que o fenómeno Carla Bruni acalmou posso falar-vos desta menina sem medo que ela se eclipse na turbulência fulgurante da ex-modelo cantora.

O percurso para descobrir Coralie é sinuoso como o de todas as aventuras que terminam com a descoberta de um grande tesouro. Apaixonado sou por Catherine Deneuve. Uma mulher que sabe beber chá, que tem gosto em chapéus. Enfim, uma mulher amante de boa loucura. Prova disso é ter estado casada com Marcello Mastroianni. Dessa união nasce Chiara, que se casa com um jovem neo-gainsbourgiano de seu nome Benjamin Biolay (dele falarei em breve...genial). Se atentarem nas entrenotas e sons do trabalho de Biolay ouvirão por vezes uma voz quente e sussurrada quase. É sua irmã, Coralie Clément.

Sob o impulso e encorajamento do irmão Coralie decidiu, no ano passado, lançar-se a solo numa aventura pelo salão dos passos perdidos. Mas melhor! Decidiu-se a abrir as suas portas aos nossos próprios passos e audições...

É a própria Coralie que nos apresenta o seu trabalho afirmando-o a banda sonora para um filme que não existe mas a existir seria À Bout de Souffle de Jean Luc Godard. Deixem-me apenas dizer que na terceira árvore a contar da última cadeira desta minha Mesa de Chá está um cartaz de Jean Seberg nesse mesmo filme, com Belmondo em fundo...mas isto não é um blog de cinema.

A variedade existente numa banda sonora está aqui muito presente. Se o primeiro tema nos convoca a canção francesa dos anos 60, no segundo tema somos imediatamente rodeados por ritmos de bossa nova. E assim vamos ondulando pelo álbum, ora regressando a França, ora indo ao Brasil, tudo por volta de 60. Por vezes há o inesperado como o fantástico Samba de mon coeur qui bat que faz imaginar uma Astrud Gilberto a cantar em francês. Ou as irrupções de jazz de Le Jazz et le Gin. Tudo terminando como se Amélie voltasse...

Sim, há magia feminina nos corais. E canta em francês com a voz que embala fogo e água, igualmente.


  posted by Chapeleiro Maluco @ 2:35 AM

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12.19.2003  

 
The living road

Confesso que estava com receio do novo álbum da Lhasa, seria difícil ultrapassar a beleza do seu primeiro álbum-La llorona.
The living road continua com uma sonoridade hipnotizante, algo acontece ao ouvir a música de Lhasa, a sua voz desconcerta-nos, é como ouvir um oceano de emoções tristes pintado em pinceladas de tons quentes.
Este álbum é uma estrada viva que atravessa fronteiras, cantando em espanhol, inglês e francês Lhasa toca-nos com uma viagem intemporal, cheia de uma melancolia colorida pela sua voz, ao mesmo tempo simples e luminosa.
« Aujourd'hui je retourne à la frontière / Je dois encore traverser / C¿est le vent qui me commande / Et me pousse à la frontière / Et efface le chemin / Qui disparaît derrière moi »
Misturam-se influências de Tom Waits, Chavela Vargas, Billie Holliday, e o resultado é um álbum (mais uma vez) inclassificável que nos desconcerta e deslumbra.




  posted by Lebre dos Arrozais @ 9:13 PM

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12.18.2003  

 
Certos temas para a noite adentro

Smoking - Joni Mitchell
Beautiful red dress - Laurie Anderson
In the heart of wood & What I found there - Current 93
Call on me ¿ Lou Reed & Laurie Anderson
I float alone - Julee Cruise
Nobody's playing - Lisa Germano
Available space - Howe Gelb
Blues subtitled no sense of wonder - Gastr del Sol
Postal - Piano Magic
Hunted by a freak - Mogwai
Perfect shadow - Tarwater
Until the dreams gets broken - Trembling Blue Stars


  posted by Cigano @ 2:34 AM

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12.16.2003  

 
Álbuns à parte #1

Stiltskin - Mind's Eye

Com o álbum Mind's Eye abro uma nova secção mental e virtual. Mental pois passarei a lembrar-me dela acoli e acolá a propósito de alguns álbuns. Virtual pois aqui deixarei o meu blasfemar. Glup (mais um gole de chá).

Este álbum é o melhor para iniciar a secção dos álbuns que por alguma razão se destacam. Boas ou más razões, entenda-se. Para se destacarem dos seus criadores, da obra, do mundo...Desse e Deste Lado do Espelho. No caso este álbum destaca-se por tudo.

A banda, desde logo, só existiu para produzir este álbum. Foi desde sempre acusada de plagiar o estilo e a música dos Smashing Pumpkins, embora esteja até hoje para perceber porquê... e ainda por cima perdeu o seu vocalista para os Genesis. Foi substituir Phil Collins...

Por outro lado é um álbum coeso, um verdadeiro álbum. Existe sozinho sem mais obra e, para além disso, existe como um deserto: imutável na mutabilidade das dunas ( ando a beber Darjeeling demais...tenho de voltar ao Earl Grey).

Mas trata-se de um bom álbum. De um álbum que não convoca uma carreira ou uma banda mas antes um momento. Um tempo.

Tem raiva, tem desespero, tem sonho e dormência. Percorre os passos da existência em muitas das cambiantes previsíveis, recordadas, desejadas. E tudo, de uma forma despojada. Com se não houvesse nada antes nem depois. E não houve.


  posted by Chapeleiro Maluco @ 7:40 PM

Vozes:




12.11.2003  

 
TOP 5 de músicas para acordar após 3 horas de sono.

Nota: como devem calcular, são três horas de sono ao cabo das quais TÊM de acordar. Não o fazem por opção. Eis, pois, o factor de exigência deste TOP.
em segundo lugar, apenas foram consideradas as primeiras músicas de álbuns de estúdio.

1 - Wake up - Mad Season no álbum Above (fantástica!)
2 - Song to the Syren - This Mortal Coil no álbum It'll end in tears
3 - Old Gold Shoe - Lambchop no álbum Nixon
4 - Your day will come - Cousteau no álbum Cousteau
5 - Sleep - Azure Ray no álbum Azure Ray

Fora deste TOP 5, devido aos meus próprios critérios, está aquela que inequivocamente merece o 1º lugar - This Love - Craig Armstrong com Elizabeth Fraser no álbum The Space Between Us

Post-Scriptum: quando estiver mais inspirado, deste Lado do Espelho, com o meu Earl Grey fumegante, farei um outro TOP 5, sem critérios limitativos.

  posted by Chapeleiro Maluco @ 9:15 PM

Vozes:




12.5.2003  

 
Profundidade e melodia

In cerca de cibo - Gainluigi Trovesi e Gianni Coscia - ECM

Com um magnífico ensaio de Umberto Eco somos encaminhados à porta do mundo do clarinetista Gianluigi Trovesi e do acordeonista Gianni Coscia. Como o romancista nos explica estes são dois músicos com formação de jazz que, no entanto, não pretenderam virar as costas às suas profundas raizes. Assim, o seu jazz é eivado de influências da música popular italiana, na sua vertente mais tradicional. Mas não se quedam por aí. Trovesi e Coscia utilizam o jazz com tudo, à moda italiana "da massa com tudo". Também aqui o resultado é supreendente e bom. Variamos da tristeza à euforia através dos sons. Mas sempre, sempre, agarrados à terra, em parte subterrâneos, só com um pouco de vento nos tomando.

Às vezes vale a pena ir a Esse Lado do Espelho.



  posted by Chapeleiro Maluco @ 8:27 PM

Vozes:





 
Há boas editoras e depois há a ECM

Há 33 anos era fundada a Edition of Contemporary Music (ECM). Não pretendo falar-vos da história desta magnífica editora que, na época áurea do rock resolveu apostar no jazz, nem tão pouco confundir-vos com o catálogo variado que hoje oferece, embora sempre devotada aos mesmos critérios de excelência. O que pretendo fazer é dar-vos conta de uma Editora que conta histórias, em europeu. O que é isto do europeu, ainda mais nesta Europa. Quando vou a esse Lado do Espelho tento percebê-lo e a ECM é um dos meios que tenho para perceber o que é ser europeu. É, por exemplo, ser editado pela ECM. Não pretendo dizer que não existem artistas de outras proveniências editados com esta chancela mas que todos eles se podem incluir no espírito europeu. Num espírito de cultura e riqueza. De mil e uma contradições que produzem, a final, algo de belo. Eis a ECM.

Há duas notas de fascínio quando se fala desta editora. Antes de tudo, a sua exigência. A ECM é das poucas editoras em que se pode apostar: retire o CD da prateleira olhando para o logotipo e não para o artista. Sem medo.

A segunda prende-se com o objecto musical cuidado que nos é apresentado. Depois da selecção dos melhores artistas dos múltiplos cantos dos mundos, a ECM produz algo em que atenção se foca em tudo, desde a caixa até à engenharia e produção do som, passando pela elaboração de compreensivos textos que acompanhem as edições.

Podem não ter reparado, mas devemos muito do bom jazz (sobretudo, não norte-americano*) e da boa música do mundo, erudita, alternativa, ou simplesmente boa, à ECM.

* - falarei da Blue Note da Capitol Records noutra altura.

  posted by Chapeleiro Maluco @ 8:25 PM

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Top 5
Para um final de tarde chuvoso a uma hora insuspeita


1 - The old gold shoe - Nixon - Lambchop, produzido por Kurt Wagner
2 - Mesmer - Cousteau - Cousteau, produzido por Robin Brown, Moor e Ian Caple
3 - Morning paper - Red Apple Falls - Smog, produzido por Jim O'Rourke
4 - Saint conformity - Confluence - Howe Gelb, produzido por John Parish
5 - Fatal - Lost Dogs - Pearl Jam, produzido por Pearl Jam


  posted by Cigano @ 7:59 PM

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12.3.2003  
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